Benta Pereira (1675-1760), viúva e matriarca de uma família de seis filhos, é considerada uma heroína campista. A ela se atribui participação ativa no histórico levante de 21 de maio de 1748. Na manhã daquele dia, cerca de 500 habitantes da Vila de São Salvador dos Campos dos Goytacazes tentaram impedir, à força, a posse do 4° Visconde de Asseca como donatário da Capitania da Paraíba do Sul. O levante foi o estopim de um longo conflito pela propriedade de terras opondo dois grupos familiares, tendo como ponto de partida remoto o fracasso da tentativa de colonização por parte do donatário Gil de Gois, no século XVII.
De um lado estavam os descendentes de Salvador Correia de Sá e Benevides, que conseguira da Coroa Portuguesa a condição de novo donatário da capitania. Seus descendentes entraram para a história campista como o 1°, o 2°, o 3° e o 4° Visconde de Asseca. Do lado oposto estava um coeso grupo familiar — que tinha em Benta Pereira uma ativa participante — a reivindicar a propriedade das terras e acusar os Asseca de exercer um domínio tirano na planície Goitacá.
O conflito, repleto de lances de bastidores e reviravoltas legais, chegou a um ponto crítico em que o grupo dos fazendeiros locais, do qual participava Benta Pereira, pegou em armas para impedir a posse do 4° Visconde de Asseca como donatário da Capitania. O levante na Câmara de Vereadores, em 21 de maio de 1748, resultou inicialmente na prisão de dezenas de rebeldes e no degredo de parte deles para Angola. A sentença foi revista em 1751, quando foram condenados apenas nove moradores — incluindo Mariana de Souza Barreto, filha de Benta Pereira. Em 1752 todos receberam o perdão real, e em 1753 o 4° Visconde de Asseca teve que devolver a Capitania à Coroa.
Certos relatos apontam que Benta Pereira também pegou em armas. Outros, mesmo preocupados em recontar a história com rigor historiográfico, reconhecem na matriarca um papel importante na articulação de seu grupo familiar e na construção de redes de influência nas instâncias de poder da então colônia — em um tempo em que em geral cabiam à mulher papéis domésticos.
A reverência a Benta Pereira expressa o tributo a uma geração de campistas avessa à obediência cega às ordens da Coroa. Sinal disto é a própria instalação da Câmara em 1652 — desautorizada pelo rei e reafirmada pelos campistas, ilegalmente, em 1656.
É fato que Benta Pereira foi uma mulher de posses e que o levante de 1748 envolveu dois grupos poderosos, tendo a população pobre participado como coadjuvante. Mas os heróis não são anjos ou deuses, e sim pessoas de carne e osso que, a despeito disto, deixam marcas inspiradoras para além de sua própria geração.
Fontes:
– Blog do Instituto Historiar. Benta Pereira. http://institutohistoriar.blogspot.com.br/2009/04/benta-pereira.html. Consulta em 28/05/15;
– PENNA, Patricia Ladeira. Benta Pereira: mulher, rebelião e família em Campos dos Goytacazes, 1748. Dissertação de mestrado em História – UFF – 2014.
Campista, nascido em 07 de abril de 1846, Luis Felipe de Saldanha da Gama era filho de José de Saldanha da Gama e Maria Carolina Reis Barroso e neto do sexto Conde da Ponte e trineto de João de Saldanha da Gama, 41º Vice-Rei da Índia.
Em 1853, Dom José resolve se transferir com a família para o Rio de Janeiro. Aos 13 anos de idade, em 1859, Luis Felipe foi matriculado no Colégio D. Pedro II, onde estudou até os 17 anos, quando fez o curso da Academia da Marinha, ingressando na Armada aos 17 anos.
Luis Felipe fez o curso de Letras e, na Marinha, foi galgando postos até chegar a Contra-Almirante. Casou-se com Emilia Josefina de Mello. Representou o Brasil na exposição de Viena (1873), na de Filadélfia (1876) e na de Buenos Aires (1882).
Recebeu as condecorações da Campanha Oriental, da Guerra do Paraguai, da Rendição de Uruguaiana e a do Mérito Militar. Liderou a Segunda Revolta da Armada (1893). Com o fim da Revolta da Armada, Saldanha da Gama lidera a revolução federalista, no Rio Grande do Sul, por terra.
Mesmo tendo recebido elogios como líder da revolução, acabou vencido pelas tropas de Hipólito Ribeiro e morto em combate em junho de 1895. Seu corpo foi jogado num matagal e encontrado dias depois, quando foi sepultado no cemitério de Riviera, no Uruguai.
A cidade de Riviera é fronteiriça à cidade brasileira de Livramento, no Rio Em 1908 o governo da República mandou especialmente a Montevidéu uma Divisão Naval, sob o comando do Capitão de Mar e Guerra Furtado de Mendonça, com a missão de trazer para esta capital os restos mortais do Almirante Saldanha da Gama, sendo-lhe erguido um importante mausoléu no Cemitério de São João Batista”, no Rio Rui Barbosa, sobre Saldanha da Gama, diz: “Saldanha da Gama é herói dos heróis!
O homem mais completo e o caráter mais extraordinário que já conheci nesta terra!
Luis Carlos de Lacerda, mais conhecido como Carlos de Lacerda, nasceu em Campos no dia 25 de maio de 1853 e morreu no dia 19 de maio de 1897, dias antes de completar 44 anos de idade. Era filho do médico João Batista de Lacerda e teve como irmãos os médicos João Batista de Lacerda e Álvaro de Lacerda, o advogado Cândido de Lacerda e o jornalista Antônio de Lacerda. Dos cinco irmãos, o único que não prestou serviços à causa abolicionista foi João Batista, que desde cedo se dedicou ao estudo de física, química, botânica e biologia, tendo sido diretor do Museu Nacional.
Apesar de ter ido estudar no Rio, não concluiu seu curso. Osório Peixoto, em seu livro Momentos Decisivos da História de Campos dos Goytacazes, diz que ele foi trabalhar na estrada de ferro que liga Niterói a Campos, quando contraiu impaludismo (malária). Retornou a Campos, onde se casou com Olympia Lacerda, com quem viveu até a morte. Com ela Lacerda enfrentou toda sorte de adversidades desde que abraçou a causa abolicionista, em 1881, até sua morte, em 1897, quando se encontrava doente e pobre.
Jornalista e orador, Luis Carlos de Lacerda recebeu do Imperador Pedro II a comenda Imperial Ordem da Rosa, criada em 1829 pelo seu antecessor, Pedro I, para perpetuar a memória de seu matrimônio, em segundas núpcias, com Dona Amélia de Leuchtenberg e Eischstädt. Luis Carlos de Lacerda recebeu a comenda por relevantes serviços prestados quando pertencia aos quadros da Força Policial da província (Estado) do Rio de Janeiro, na qual ingressou entre os anos de 1876 e 1878 (não foi encontrada a data precisa).
Nomeado como Delegado de Polícia em sua terra natal, função que exerceu entre os anos de 1879 e 1881, defendeu, no período, os donos de gado e gente, embora pautasse sua conduta pela justiça e não permitisse torturas e humilhações aos escravos.
Em 1881, segundo Evaristo de Moraes (ver bibliografia), Luis Carlos de Lacerda despertou de seu sonho dogmático, abraçou a causa abolicionista e participou da fundação da Sociedade Campista Libertadora, terceira entidade criada no município para combater o sistema escravista (as duas primeiras – Sociedade Emancipadora Ypiranga, em 1880, e Sociedade Emancipadora Campista, em 1881 – tinham sido criadas pelo médico Miguel Herédia, mas não foram eficazes ao que se propunha: angariar fundos para comprar a alforria de escravos).
Mesmo sendo membro do Partido Conservador, Luis Carlos de Lacerda não concordava com o regime escravista. Por outro lado, não assumiu a causa republicana, só o fazendo após a queda da Monarquia. No dia 17 de julho de 1881, quando a “Sociedade Campista Libertadora”, foi criada, Lacerda foi eleito orador, mas declinou do cargo, justificando com o seguinte texto, reproduzido pelo Monitor Campista em 29 de julho daquele ano:
“Tratar-se da extinção momentânea do elemento servil, é amesquinhar-se a ideia e ridicularizar-se a liberdade a quem não sabe compreendê-la, nem defini-la! Venham escolas em abundância e por toda parte, que em muito pouco tempo a abolição do elemento servil no Brasil, será uma realidade”. (Feydit, p. 360)
Efetivamente, a campanha antiescravista só seria posta em prática pela associação dois anos depois de sua fundação, aos 27 de julho de 1883. E só em 25 de março de 1884, nas dependências do Teatro Empyreo, foi realizada a 1ª Conferência Abolicionista de Carlos de Lacerda. Para melhor divulgar a propaganda abolicionista, Lacerda pôs em circulação, no dia 1º de maio de 1884, o jornal “Vinte e Cinco de Março”, uma alusão à abolição dos escravos no Estado do Ceará, ocorrida em 25 de março de 1884. O jornal funcionou numa casa de dois andares na rua dos Andradas, 72. Em 27 de junho de 1884, Carlos de Lacerda organizou uma segunda conferência, também no Teatro Empyreo, à qual se seguiram muitas outras.
Os memorialistas e historiadores não se escusam em classificar o maior líder abolicionista em Campos. Evaristo de Moraes, ao escrever sobre ele, diz: “um homem de grande coragem pessoal”, Luis Carlos de Lacerda “foi o motor central da agitação abolicionista em Campos, e, por isso mesmo, o mais perseguido pelo ódio dos proprietários de escravos”.
Imitando José do Patrocínio – de quem fora companheiro de infância – ainda de acordo com Evaristo de Moraes, “escrevia o seu jornal no estilo da Gazeta da Tarde, do Rio de Janeiro, da qual utilizava artigos, notícias e telegramas”. Adotava também todos os recursos de ataque material à escravidão, semelhantes aos de Antônio Bento, em São Paulo, e aos do Clube do Cupim, em Pernambuco. Escondia os escravos num cômodo camuflado da sede do jornal Vinte e Cinco de Março e depois os levava para os quilombos. Muitos foram enviados para o Ceará, que havia decretado o fim da escravidão.
Luis Carlos de Lacerda promovia ações diretas que irritavam sobremaneira os fazendeiros: libertava os cativos, ocultava os escravos em quilombos, incitava-os à revolta, solicitava inquéritos e exames de corpo de delito por ofensas a escravos e, nas contendas públicas, palestras e julgamentos, exibia instrumentos de tortura. Organizava ainda as queimas dos canaviais, provocando enormes prejuízos aos detentores do poder político e econômico.
Traduzindo as queixas dos proprietários rurais, senhores de milhares de escravos, a Câmara Municipal mostrou-se, em maio de 1884, alarmada com a propaganda do Vinte e Cinco de Março. Vários vereadores – fazendeiros escravocratas – acusavam o movimento abolicionista de anarquista e suas lideranças de insuflarem os escravos à insurreição e sedição. Em 21 de maio daquele ano, Luis Carlos de Lacerda e outro membro do Clube Abolicionista, Leopoldo Figueiras, foram obrigados a abandonar a cidade, sob a acusação de subversão. O historiador Osório Peixoto Silva diz textualmente que eles foram expulsos. No Rio de Janeiro, foram recepcionados pelos líderes abolicionistas cariocas, liderados pelo também campista José do Patrocínio. Receberam ajuda e retornaram a Campos no dia 11 de julho, sendo recebidos com alarido e bandas de música. Escrevendo sobre a estada na Corte, no Rio de Janeiro, Luis Carlos de Lacerda diz: “tivemos à nossa disposição, hotel, imprensa, advogados e tudo de quanto necessitássemos”.
Inconformados, os fazendeiros ficaram mais preocupados quando, no mês seguinte, agosto, verificaram-se os primeiros incêndios nos canaviais. O jornal Vinte e Cinco de Março divulgava os fatos. Com apoio de parte da sociedade e dos abolicionistas do Rio de Janeiro, principalmente Patrocínio e Joaquim Nabuco, Lacerda passou a adquirir cartas de alforria.
Em 1884, além do jornal Vinte e Cinco de Março, Luis Carlos de Lacerda fundou o Clube Abolicionista Carlos de Lacerda, promovendo conferências públicas. A primeira deveria ser realizada no dia 7 de setembro de 1884. Os fazendeiros reagiram e alegaram que Carlos de Lacerda insuflava os escravos para uma insurreição geral. O presidente da Província enviou à cidade uma grande força militar. A conferência realizou-se mesmo assim, com os líderes Carlos de Lacerda, o poeta Luís Militão e o professor Tomás Augusto entregando 21 cartas de alforria.
A 26 de março de 1885, Luis Carlos de Lacerda organizou a invasão de uma fazenda, na freguesia de São Gonçalo (hoje, Goitacazes), de propriedade de Orbílio da Costa Bastos, tido por homem cruel. Libertaram três escravos que haviam sido castigados a azorrague (chicote com oito tiras de couro com ferros cortantes nas pontas) e, depois, postos no tronco; libertaram, na oportunidade, muitos outros cativos.
Os fazendeiros promoveram um processo acusando Carlos de Lacerda de mandante, e de mandatários, Adolfo Porto, Adolfo Magalhães e Feliciano José da Silva. Os abolicionistas foram acusados de terem “subtraído do poder do dono” os escravos, os forros e o tronco. Segundo alguns relatos, colhidos por Rodrigo Alzuguir (autor da biografia de Wilson Batista), para o feito, os abolicionistas sequestraram um trem da linha Campos/São Sebastião, para conduzir os escravos libertos. Luis Carlos de Lacerda foi preso, juntamente com outros envolvidos.
Defendido mais uma vez por Sizenando Nabuco (irmão de Joaquim Nabuco e notório advogado da capital, que sempre prestou serviços para os abolicionistas), Lacerda viu a acusação ser arquivada por falta de provas. Em 11 de junho, os outros acusados foram submetidos a julgamento, sendo absolvidos.
Em 08 de maio de 1886 o advogado e irmão de Luis Carlos de Lacerda, Cândido de Lacerda, enviou telegrama ao ministro da Justiça com o seguinte teor: “Esta madrugada o alferes Corte Real aqui destacado, e sicários, penetraram na residência do Comendador Carlos de Lacerda, tentando assassiná-lo, evitado pela fuga. Providências” (Salgado, p.113). Pouco tempo depois, ainda em 1886, o próprio Luis Carlos de Lacerda foi ao Rio de Janeiro para se queixar, junto ao Ministério da Justiça e à chefia de polícia no Estado, de perseguições ao jornal Vinte e Cinco de Março.
Quando, em 1887, houve novos incêndios nos canaviais, os fazendeiros tentaram corromper Carlos de Lacerda. Não conseguindo, reuniram-se e votaram por sua “eliminação”. Participante da reunião, Raymundo Alves Moreira, o Barbaça, tomou para si a incumbência de assassinar o líder abolicionista.
Em 24 de outubro de 1887, o jornal foi invadido pela polícia. Não encontrando ninguém, os policiais seguiram até a casa de Adolfo Porto, que ficava próximo à redação, e o prenderam . Lá estavam e também foram presos: Júlio Armond, Leopoldo Figueira, Feliciano José da Silva e Matos Sobrinho. Retornaram, então, à redação do jornal e quebraram tudo. Não foi um “ato terrorista”, mas sim uma ordem expressa do delegado de Polícia.
Mas o Vinte e Cinco de Março recebeu muito apoio popular e das classes médias campistas, comerciantes, profissionais liberais e, em especial, médicos. Em fevereiro de 1888, o jornal de Lacerda voltou a circular e a atacar de forma contundente os escravocratas. Um mês e meio depois, Luis Carlos de Lacerda alcançou a vitória tão almejada: em 25 de março de 1888 o município de Campos foi declarado livre da escravidão . Somente 48 dias depois seria aprovada e sancionada pela Princesa Isabel a Lei Áurea, que libertou os escravos de todo o país.
Um personagem se tornaria importante na trajetória de Lacerda: o fazendeiro Raymundo Alves Moreira, conhecido como Barbaça (mantinha uma espessa barba ruiva) e que possuía um cavalo batizado de Escravocrata. Diferentemente dos demais, revelava, publicamente, seu ódio a Luis Carlos de Lacerda. Pelos jornais da época, principalmente o Monitor Campista, fazia ameaças ao líder abolicionista, assim como comparecia a algumas palestras de Lacerda no Teatro Empyreo e admoestava o conferencista.
Dois empregados do Barbaça, no Beco do Barroso (entre a Catedral Diocesana e a rua Barão do Amazonas), atiraram contra os redatores Adolfo Porto e João Bento Alves, do Vinte e Cinco de Março . Socorridos por populares, os dois foram internados no hospital e se recuperaram. Adolfo levou uma bala na cabeça, mas sobreviveu. Luis Carlos de Lacerda acusou Raymundo Moreira de ser o mandante do atentado. Aberto o processo, os empregados de Raymundo, o Barbaça, foram presos. Depois, o próprio Raymundo. Mas, no julgamento, todos foram absolvidos.
Ocorre que o Barbaça havia participado da reunião dos fazendeiros que tiveram escravos libertos por Lacerda, na qual decidiram pela eliminação do líder abolicionista. Tramou o assassinato de Carlos Lacerda, reunindo capangas que ficariam em pontos estratégicos, do lado de fora do teatro Empyrio, no dia em que o líder abolicionista fosse discursar.
Luis Carlos de Lacerda marcou mais uma conferência no Teatro Empyrio, que seria realizada em 30 de janeiro de 1887. Como de outras vezes, quando o líder abolicionista discursava, o Barbaça o provocou. Recebeu vaias e saiu. Retornou, pouco depois, com dois capangas, sendo impedido de entrar no teatro por Adolfo Porto. Reagiu e houve briga e disparos. A plateia saiu às pressas do teatro, provocando um tumulto. Momento ideal para o atentado contra Lacerda. Tiros ecoaram e, em seguida, o abolicionista Luís Antônio Fernandes recebeu uma bala na cabeça e caiu no chão, morto. Mais uma vez o fazendeiro Raymundo Alves Moreira, o Barbaça, foi acusado, mas não havia provas e ele foi liberado.
Com a decretação do fim da escravidão em Campos, em 25 de março de 1888, e o fim da escravidão no Brasil, em 13 de maio do mesmo ano, o problema escravista ficou apenas nos parlamentos. Durante anos, partidários dos fazendeiros defenderam a indenização por parte do governo pela libertação dos escravos, que lhes custaram dinheiro. Por seu turno, partidários dos abolicionistas defenderam o pagamento de indenização aos escravos, pois os libertos não tinham condições de sobrevivência nem onde morar. Os governos republicanos não atenderam suas demandas, exigidas por congressistas que defenderam o fim do regime escravista.
Em 21 de julho de 1889, o fazendeiro Raymundo Alves Moreira, o Barbaça, foi assassinado por dois empregados (escravos libertos) de Luis Carlos de Lacerda. Barbaça estava a cavalo quando foi derrubado e morto a golpes de foice e facão. Os assassinos cortaram a orelha do fazendeiro para mostrar ao comendador (Carlos de Lacerda), segundo disseram depois à polícia. A polícia prendeu os dois suspeitos, que confessaram o crime. Acusado de ser o mandante, Luis Carlos de Lacerda também foi preso.
Mais uma vez o irmão de Joaquim Nabuco, Sizenando Nabuco, veio a Campos e fez a defesa de Luis Carlos de Lacerda. Estava acompanhado dos advogados Pedro Tavares e Cândido de Lacerda. Julgado em 24 de março de 1890, foi absolvido. Os dois assassinos foram condenados a trabalhos forçados “pelo resto de suas vidas”. Lacerda saiu do julgamento muito abalado com a condenação dos ex-escravos, que ele havia libertado e que, talvez sob tortura, haviam dito que o mandante fora ele, Lacerda.
A partir desse episódio, Luis Carlos de Lacerda passou a ter crises nervosas, e a vida, para ele, parecia não ter mais sentido. Acabrunhou-se. Seu estado de saúde, que nunca foi muito bom desde que contraiu malária, ainda jovem, agravou-se. Faleceu em 1897, com 43 anos de idade. Mais de três mil pessoas compareceram ao seu sepultamento, e toda a cidade assistiu ao cortejo. As lyras Operários Campistas, Guarany, Conspiradora e Apollo executaram as marchas fúnebres durante o trajeto, que durou três horas.
Referências bibliográficas
ALZUGUIR, Rodrigo. Wilson Batista – o samba foi sua glória. Editora Casa da Palavra. Rio de Janeiro, 2013;
CARVALHO, Waldir Pinto de. Gente que é nome de rua, Volume I. Edição do autor, Campos dos Goytacazes,1985;
LIMA, Lana Lage da Gama. Rebeldia Negra e Abolicionismo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1981.
MACHADO, Gastão. Os crimes célebres de Campos, 2ª edição. Indústrias Gráficas Atlas Ltda, Campos dos Goytacazes, 1966/1967;
MORAES, Evaristo de. A Campanha Abolicionista. Rio de Janeiro: Liv. Ed. Leite Ribeiro, 1934;
RODRIGUES, Hervé Salgado. Na taba dos Goytacazes. Imprensa Oficial, Rio de Janeiro, 1988;
SILVA, Osório Peixoto. Os momentos decisivos na história de Campos dos Goytacazes. Edição do Serviço de Comunicação da Petrobras, 1984, Rio de Janeiro, 1984;
Nilo Procópio Peçanha é campista de Morro do Coco, nascido a 02 de outubro de 1867 e falecido em 1924, na cidade do Rio de Janeiro, sendo sepultado no Cemitério São João Batista.
Estudou em Campos e em Niterói e cursou a Faculdade de Direito em São Paulo, terminando o curso na Faculdade de Direito de Recife. Sua vida como advogado durou pouco, pois ingressou na política e aos 21 anos, em 1890, elegeu-se deputado constituinte e, em 1891, deputado Em 1903, renunciou ao mandato de deputado para assumir a Presidência (nomenclatura de governador, à época) do Estado do Rio de Janeiro, cuja capital era Niterói. Eleito vice-presidente da República em 1906, assumiu a Presidência em 1909, quando apoiou a Agricultura, Indústria e Comércio, criou o Serviço de Proteção ao Índio (nomeando para chefiá-lo o Marechal Rondon) e investiu maciçamente na Educação, criando, inclusive, as escolas de Aprendizes Artífices, depois Escolas Técnicas, CEFET e hoje, em Campos, Instituto Federal Nilo Peçanha governou o Estado do Rio em mais um mandato, entre 1914 e 1917 e foi também Senador da República e Ministro das Relações Exteriores.
É considerado um dos construtores do Brasil moderno, tendo recebido homenagens em todo o país, inclusive a cidade que leva seu nome, Nilópolis, no Estado do Rio.
Em Campos, seu nome consta em colégio, CIEP, numa das Avenidas principais da cidade, praça pública, a centenária Biblioteca Municipal e o edifício sede da Câmara de Vereadores – Palácio Nilo Peçanha que recebeu, em 2014, uma estátua sua em tamanho natural.
A capitania de São Thomé, compreendida entre o rio Macaé e o rio Itapemirim, doada a Pero de Góis em 1536, sofreu a primeira tentativa de colonização com a fundação da Vila da Rainha, às margens do rio Itabapoana. Mas os nativos da nação goitacá que, inicialmente, auxiliaram Pero de Góis, destruíram-na, obrigando o donatário a abandoná-la.
Como as capitanias eram hereditárias, o filho de Pero, Gil de Góis, recebeu as terras e tentou colonizá-la, fundando a Vila de Santa Catarina das Mós, também à margem do Itabapoana, mas num outro local. Do mesmo modo, os índios goitacá ajudaram o donatário, mas, pouco tempo depois, atacaram a vila, destruindo-a. Gil de Góis renuncia à capitania e retorna a Portugal. As terras ficam abandonadas.
Abandonada, a capitania foi alvo de aventureiros de todo tipo. Muitos foram os pedidos de sesmarias – terra inculta ou abandonada que os reis de Portugal cediam a sesmeiros que se dispusessem a cultivá-la.
Martim Corrêa de Sá, governador do Rio de Janeiro, recebeu instruções da Coroa portuguesa para distribuir as terras abandonadas e atende, em 19 de agosto de 1627, o pedido feito por sete capitães que possuíam propriedades na cidade do Rio de Janeiro e Cabo Frio. Os capitães lutaram durante muitos anos contra os franceses que, com apoio dos tupinambás e tamoios, queriam fundar no Rio de Janeiro a França Antártica. Expulsos os franceses, o governo se volta contra os índios e os capitães ajudaram a aniquilar os tamoios e tupinambás. Por suas lutas em prol da Coroa, solicitam e recebem as terras “ao norte do rio Macaé”.
Na carta dirigida ao governo do Rio de Janeiro, os capitães escrevem, sobre a aniquilação dos nativos que auxiliaram os franceses: “nós, portugueses, fomos vencedores. Não pela coragem superior a nossos adversários, porém pela vantagem das armas de fogo e disciplina, que nos asseguravam sobre homens nus, que não podiam opor-nos mais que a sua intrepidez; fizemos neles uma grande mortandade, ficando abandonadas as suas povoações: os tamoios ficaram de todo aniquilados, e o resto dos tupinambás abandonaram as montanhas vizinhas e seguiram para o norte”. (Lamego, 94).
Nas terras fluminenses, as nações indígenas, já quase totalmente destruídas, tiveram que ceder suas terras aos invasores e seus braços, sua vida livre, aos colonos, novos donos do novo mundo. Os padres das diversas ordens – jesuítas, beneditinos, carmelitas – amansavam os nativos que sobreviveram aos canhões e carabinas dos portugueses, forçando-os a viver nos aldeamentos religiosos para servirem aos colonos, como escravos.
O goitacá ainda resistia. Para que se formasse na Corte uma opinião contra esta nação, religiosos e servidores da Metrópole escreviam e contavam atrocidades cometidas pelos índios, estigmatizados como antropófagos, sujos, asquerosos e violentos. Em verdade, os goitacás defendiam suas terras, o direito de viver em liberdade, desde as tentativas de colonização da capitania de São Thomé por Pero de Góes e, depois, pelo seu filho, Gil de Góes. Homens brancos viviam entre eles sem problemas, fato que desmentia as versões fantasiosas narradas à Corte.
A demora na conquista dos campos pode ter sido pelas condições geográficas que colaboraram para a resistência goitacá. “As formações geológicas impediam a existência de bons portos; e, mesmo, de simples ancoradouros ao Sul do Paraíba; por isso, a terra é quase desconhecida, não obstante haver André Gonçalves batizado o Cabo de São Thomé, em 21 de dezembro de 1501” (Lamego, 93).
Os Sete Capitães e o início efetivo da colonização de Campos
Nos primórdios da ocupação do atual território de Campos dos Goytacazes pelo homem branco, no século XVII, atuaram como protagonistas os chamados Sete Capitães: Miguel Ayres Maldonado, Miguel da Silva Riscado, Antonio Pinto Pereira, João de Castilho, Gonçalo Corrêa de Sá, Manuel Corrêa e Duarte Corrêa. Em 12 de dezembro de 1632, parte daquele grupo de homens, com mais dezessete pessoas, alugou em Cabo Frio uma sumaca – embarcação tipo navio de pequeno porte, muito usada na costa brasileira, conforme o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda – e iniciou viagem até as terras que receberam “em recompensa de nossos serviços guerreiros, segundo a nossa petição rezava, no decurso de trinta anos prestados ao Estado…” (LAMEGO, pág. 94). Entre os dezessete estavam alguns dos filhos dos Sete Capitães e os índios amansados Valério Corsunga e Miguel. Na embarcação, “metemos nossa comedoria e nossas armas”, segundo o roteiro (diário de viagem) registrado anos depois, no Cartório de Cabo Frio.
Os capitães não receberam toda a capitania de São Thomé, mas sim, a parte compreendida entre o rio Macaé, correndo a costa, até o rio Iguaçu, ao norte do Cabo de São Thomé. Na viagem de sumaca, que tinha por nome Senhora da Guia, os capitães passam pela barra de São João e chegam a Macaé às 08:30h do dia 02 de dezembro de 1632. Lá, encontram uma povoação de casas de palha e, de acordo com Maldonado, que escreve um diário da viagem (diário que ainda hoje gera polêmica em relação à sua autenticidade e autoria, mas que continua sendo documento único e sempre recorrível para que se possa conhecer e estudar o início da colonização dos campos) “não achamos gente de maior consideração. Só mamelucos muito costeados e agradáveis”. Mais para o interior, no entanto, encontram moradias melhores e moradores que são “gente da nossa massa”. A autoria e autenticidade do diário da viagem ainda geram controvérsia, mas o “roteiro” continua sendo um documento único e sempre recorrível para que se possa conhecer e estudar o início da colonização dos campos.
A nação goitacá já não era a mesma que aterrorizara os invasores nos quase cem anos anteriores à chegada dos capitães. Estes conseguem informações sobre os poucos índios existentes na sesmaria: duas aldeias, sendo uma às margens da Lagoa Feia, “cuja ferocidade estava pouco mais ou menos”, e a outra, no Cabo de São Thomé, cujos índios são “pacíficos”. Com as informações obtidas pelos brancos de Macaé, os capitães, mais confiantes, partem para a nova terra no dia 12 de dezembro, levando um intérprete. Encontram índios com os quais fazem contato, à beira da Lagoa Grande, “o grande mar de água doce, a qual eles chamavam pelo seu idioma…” escreve Maldonado no seu roteiro. “Era um grandíssimo lago ou lagoa de água doce, a qual estava tão agitada com o vento sudoeste, tão crespas suas águas e tão turvas, que metiam horror, aonde lhe demos o apelido de lagoa feia”.
No Cabo de São Thomé os invasores se deparam com outra aldeia goitacá. Com eles, vivem onze náufragos portugueses, sendo quatro marinheiros e sete degredados, “primeira raiz branca na planície”, no dizer de Alberto Lamego. O fato revela que os goitacá não podiam ser antropófagos e cruéis como se acreditava na capital. Maldonado narra em seu roteiro:
“(…) nisto chegaram todos de arcos e flechas, o seu maioral na frente, acompanhado de quatro homens da nossa massa, estes nos saudaram junto com o maioral pelo seu belo modo… Nisto o maioral dirigiu ordem para todos recolherem arcos debaixo do braço e todos bateram palmas e abaixaram as cabeças, o maioral se dirigiu ao intérprete, para que nos fizesse saber que não reparássemos em virem de arcos, pois não sabiam se viriam outros que os viessem atacar…”.
Nas conversas com os náufragos, os capitães ficam sabendo das grandes pastagens mais para o interior.
Seguindo em frente, os capitães descobrem a barra do açu, limite da sesmaria. Baixam uma lancha, com os marcos (que serviriam para a demarcação das glebas de cada um) e o intérprete, além de oito homens. Mas o tempo muda de repente, fato que ocorre até hoje naquela região (PEIXOTO, 1984. P.29), e os oito retornam à lancha, ficando em terra apenas o intérprete. Embarcaram na sumaca e retornaram a Macaé e, em seguida, a Cabo Frio.
No dia 19 de dezembro de 1632, os capitães voltaram aos campos, mas, a partir de Macaé, seguiram a pé, levando cachaça e missangas que haviam sido compradas no Rio de Janeiro. Partiram levando a cachaça em cabaças (espécie de cuia, feita do fruto do Porongo, trepadeira que dá um fruto oco e de casca dura), espadas, lanças, armas de fogo e comida. Pernoitaram à margem de uma mata não muito longe do mar. No dia 20, caminharam até o final da tarde e, no dia 21, andaram todo o dia, até se depararem com as campinas. Acamparam “à margem de um chavascal” (mata de plantas silvestres) e o novo intérprete que trouxeram de Macaé afirmou que estavam próximos da aldeia dos índios da Lagoa Feia.
No seu roteiro, Maldonado escreve: “ao romper da alva, fomos reconhecidos pelos selvagens, porém, estes, reconhecendo o prático (intérprete) e seus camaradas, não houve novidade alguma”. Os capitães oferecem espelhos e cachaça aos índios e entram na aldeia. Os índios fizeram um alarido, ao ver os brancos e se mostram satisfeitos com as bugigangas.
Após ganharem a simpatia dos goitacás, os capitães conheceram a Lagoa Grande que, com o vento sudoeste, “está tão bravia, com águas tão crespas”, que reforçou a primeira opinião que tiveram, quando lhe deram o nome de Lagoa Feia. No dia 23 saíram da aldeia acompanhados dos índios e, caminhando pela imensa pradaria, diz Maldonado: “nossos corações se abrasaram de alegria por vermos que tínhamos alcançado tão rica propriedade para nossas criações cavalar e vacum”. Revela, assim, que vieram aos campos com o intuito de criar gado, por certo, para abastecer de carne o Rio de Janeiro, embora no roteiro atribuído a Maldonado não conste esta intenção.
No dia 24 reencontraram o intérprete que ficara na foz do rio Açu, acompanhado de cinco índios. Juntos, caminharam até outra aldeia dos goitacá, um arraial “bem grosseiro, umas choupanas grandes em cima de uns montinhos”. Passaram o dia de natal e os subsequentes entre os índios. No dia 28, porém, voltaram a Macaé e, no dia 08 de janeiro de 1633, chegaram em suas casas em Araruama (PEIXOTO, 1984, P.30).
Os campos são demarcados
Em outubro de 1633 os capitães retornam às terras, fincando os marcos de pedra no litoral com a linha imaginária em direção ao oeste. Durante cerca de dois meses os capitães dividem seus quinhões e, no dia 08 de dezembro, em Campo Limpo, ergueram um curral e uma choupana coberta de palha para o índio Valério Corsunga, que veio com eles de São Vicente (Cabo Frio) e deixaram, ao seu cuidado, uma vaca e um touro. No dia 10 de dezembro, ergueram o segundo curral, na ponta do Cabo de São Thomé, com cinco novilhas e um touro, tendo o escravo Antônio Dias como curraleiro. A pouca distância deste erguem um terceiro curral, o de São Miguel, deixando-o sob os cuidados do índio Miguel. A seguir, retornaram ao Rio de Janeiro. (LAMEGO, p.95)
Novamente Osório Peixoto relata de maneira diversa o mesmo fato:
“no dia 20 de outubro de 1633, novamente os Sete Capitães saem em expedição para os campos. Agora, usam cavalos e trazem o escravo Antônio Dias, o índio Miguel, curraleiro do capitão Riscado e o índio Valério Corsunga, afilhado do capitão João de Castilho. Levam cabeças de gado para a criação nos campos. São dez novilhas e dois touros do capitão Riscado e três novilhas e um touro do capitão Castilho. Alcançam Macaé a 27, após abrirem picadas em matos bravios e lugares ermos. Partem desta povoação no dia 31, levando de Macaé seis mamelucos e o intérprete da primeira expedição. Seguem o mesmo itinerário e batizam os lugares por onde passam. No dia 08 de novembro de 1633, demarcam as terras entre si, a partir do litoral, dividindo a sesmaria em sete partes. Depois, tiram linhas retas até as serras”. (PEIXOTO, 1984, p.30)
Segundo o Roteiro dos Serte Capitçães. São “inúmeras lagoas que encontram e, numa delas, fazem uma jangada para atravessá-la. No meio da lagoa, “desamarrou a cabeça da jangada e caiu o Sr. Gonçalo, porém, não teve perigo algum; aqui disse o Sr. Gonçalo, que desse ao lago o apelido de Tahy, por seu irmão ai cair”. (Roteiro dos Sete Capitães)
Durante as demarcações, ainda segundo o roteiro, o capitão João de Castilho vendeu sua parte ao capitão Riscado, que trocou, também, um seu engenho por um pedaço da parte do capitão Maldonado. O capitão Riscado foi quem mais acreditou no êxito dos campos, como se depreende das negociações narradas no roteiro, embora nenhum documento que as comprove.
Já os irmãos Corrêa (Gonçalo, Duarte e Manoel) pediram que os quinhões que lhes cabiam ficassem unidos, não necessitando de demarcações entre si. Durante o trabalho de demarcação, os capitães se depararam com um negro entre os índios e mostraram o desejo de levá-lo para o Rio de Janeiro. O negro, na certa temendo perder a liberdade nos campos e de voltar a ser escravo, fugiu. “Preferiu continuar entre os índios, onde era bem tratado” (PEIXOTO,1984, p. 31).
Com as terras demarcadas e os currais prontos para o início da criação de gado, os expedicionários retornam às suas casas em fevereiro de 1634. O fato histórico que, para este trabalho, é o principal, é que começou ali, naquele final de 1633, a colonização dos campos. E o marco dessa colonização foi, sem dúvida, o primeiro curral, erguido no dia 08 de dezembro daquele ano.
O roteiro das viagens, que teria sido escrito por Maldonado, é assunto polêmico. O autor do roteiro narra com detalhes a viagem, anotando até as horas exatas de quando escrevia. No entanto, a não citação de datas importantes como a do natal, por exemplo, é motivo de desconfiança por parte de alguns pesquisadores. Se o roteiro foi ou não escrito por Maldonado, a relevância existe apenas para o estudo a cargo dos acadêmicos.
Ninguém nega a importância do documento nem a certeza de que quem fez a narrativa esteve nos campos. Ela é fiel ao que aqui existia à época. Quanto aos nomes de lugares, pode ter sido como consta no roteiro, pois eles existem com os mesmos nomes citados no documento e não surgiu outra versão que negue a que foi escrita por Maldonado ou alguém que aqui esteve na companhia dele e dos demais capitães ou na de alguns deles.
Os Sete Capitães retornam ao Rio de Janeiro. O sucesso de suas viagens e as notícias das terras dos goitacás se espalharam, porque eram as primeiras campinas a serem utilizadas para a criação de gado cavalar e vacum, “segundo as necessidades…”. Não se fala em cana-de-açúcar. Naquele período, o fim único da colonização dos campos é o abastecimento do Rio de Janeiro, uma cidade que crescia e precisava da carne para o consumo e gado para fazer funcionar as moendas dos engenhos.
Logo surgiriam interessados em arrendar terra para a criação de gado. Na terceira expedição, os capitães (que, segundo o polêmico roteiro, já não eram sete, pois alguns desistiram da empreitada, preferindo passar suas terras para outrem e, ainda, vendê-las aos demais capitães) levaram consigo Gaspar de Souza Monteiro e José Barcelos Velho.
No dia 07 de novembro de 1634 o grupo seguiu viagem com destino a Araruama, onde pernoitaram. No dia 08, tomaram o rumo de Cabo Frio. Depois, Macaé e, finalmente, no dia 14, aportam nas terras do capitão Gonçalo e do capitão Maldonado, próximo a lagoa de Carapebus. No mesmo dia 14 chegaram ao curral de São Miguel. No dia 15, os capitães mostraram as campinas e os currais, já com muitas novilhas, aos interessados em arrenda-las.
Gaspar de Souza Monteiro e José Barcelos Velho fecharam negócio, na certeza de que as terras eram excelentes para a criação de gado cavalar e vacum “para abastecer o Rio de Janeiro”. Pagaram a quantia de hum mil réis, recebidos pelo capitão Riscado. Pelo contrato, os arrendatários ficaram impedidos de fazer benfeitorias que custassem mais que 30 mil réis. Feito o acordo, os dois fazendeiros retornam ao Rio de Janeiro e só em 1637 trazem gado bovino para suas propriedades.
“Os capitães, morando em seus engenhos no Rio de Janeiro, Cabo Frio e Araruama, seguem arrendando seus quinhões. O pastoreio, a partir da posse da terra pelos capitães, estende-se pelo interior da zona de aluviões, onde a erva embaraça as pernas dos viajantes. A multiplicação do gado é assombrosa”. (LAMEGO, p. 96).
As notícias sobre os campos repercutiram no Rio de Janeiro. A planície goitacá é cobiçada por muita gente que desejava fazer fortuna com a criação de gado. Os capitães e seus herdeiros arrendaram, trocaram e venderam grandes extensões de terra. Para a planície (entenda-se a Baixada) se dirigiam, além de fazendeiros, muitos criminosos que fugiam da cidade grande, aventureiros em busca de fortuna, pequenos criadores de gado, soldados desertores, vaqueiros e oficiais de estrebaria.
A população aumentava rapidamente e os fazendeiros e comerciantes constituíram um vilarejo próximo ao local onde, depois, foi erguida a Igreja de São Francisco de Assis. A capitania prosperava rapidamente e, num espaço de 10 anos, a colonização (tentada por Pero de Góes e por Gil de Góes sem sucesso) era um fato.
Capela de São Miguel, originalmente de madeira, erguida pelos capitães
A Lagoa Feia (maior que o Mar Morto), que impressionou os capitães
Lagoa de Carapebus, onde estiveram os capitães, que lhe deram o nome.
Foz do rio Ururaí, na Lagoa Feia.
Foz do rio Uguassu, hoje, Lagoa do Açu, onde os capitães fincaram o primeiro marco das sesmarias recebidas (entre o rio Iguassu e o rio Macaé).
Referências bibliográficas
BRANDÃO. Renato Pereira. O Roteiro dos Sete Capitães e a Capitania de São Tomé: confrontações documentais numa perspectiva interdisciplinar. Arquivo da Biblioteca Municipal Nilo Peçanha;
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FAZENDA, José Vieira. Revista do Instituto Histórico e |Geographico Brazileiro – Tomo LXXI, Parte I. Imprensa Oficial, 1909;
FEYDIT, Júlio. Subsídios para a História dos Campos dos Goytacazes. Edição revisada, mas sem indicação de editora e data;
GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas; LUZ, Margareth da. (organizadores). Roteiro dos Sete Capitães: documentos e ensaios. Macaé/RJ. Funemac Livros.
HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Record, Rio de Janeiro;
LAMEGO, Alberto Frederico de Moraes. A Terra Goytacá à Luz de Documentos Inéditos, Livro I. L’edition D’art. Bruxeles/Paris. 1920;
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PEIXOTO, Osório. Os momentos decisivos da História de Campos dos Goytacazes. Serviço de Comunicação Social da Petrobrás, 1984;
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO. Roteiro do Sete Capitães. Rio de Janeiro, 1893;
SOFFIATI, Aristides Arthur. O massacre dos índios do Norte Fluminense. Trabalho publicado no jornal Monitor Campista de 19/20 de abril de 1998.
Pesquisa e texto: Avelino Ferreira
Revisão: Gustavo Smiderle
Fotos: Marcelo Fernandes e Viviane Chagas
Imagens de Drone (rio Iguassu, rio Ururaí e Lagoa Feia): Gledson Agra
Traçado do roteiro no mapa de Couto Reys: Aristides Arthur Soffiati Neto
José Alexandre Teixeira de Melo, médico, jornalista, historiador e poeta, nasceu em Campos, RJ, em 28 de agosto de 1833, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 10 de abril de 1907. Foi o fundador da cadeira n. 6 da Academia Brasileira de Letras, escolhendo como patrono o poeta Casimiro de Abreu, de quem fora amigo. Foi substituído pelo Almirante Jaceguai, que não lhe fez o elogio, porque, como declarou, lhe desconhecia a obra.
Era filho de José Alexandre Teixeira de Melo e de Eugênia Maria da Conceição Torres. Fez o curso de Humanidades no Seminário São José e formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde defendeu tese em 25 de novembro de 1859. Fixou residência em Campos, onde exerceu a clínica e colaborou em jornais, até 1875, quando se transferiu para o Rio do Janeiro. Como jornalista, assinava artigos com seu nome e com o pseudônimo Anódino. Durante a fase acadêmica foi membro de diversas organizações literárias e escreveu Sombras e sonhos, publicado em 1858. Em 1876 foi nomeado chefe da Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, passando, mais tarde, para a Seção de Impressos e, finalmente, assumindo a direção da Biblioteca, em 1895. Exerceu o cargo até 1900, quando se aposentou. Viajou pela Europa durante 1892 e 1893.
Pesquisador incansável, dedicou-se a assuntos de história pátria, pesquisando, nos arquivos de manuscritos, os documentos que deviam pleitear os direitos do Brasil a territórios contestados, servindo de base à argumentação de Joaquim Nabuco e Rio Branco. Publicou diversos trabalhos de valor, como as Efemérides nacionais e Limites do Brasil com a Confederação Argentina. Colaborou nos Anais da Biblioteca Nacional, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, na Gazeta Literária e em outras publicações.
Como poeta, Teixeira de Melo pertenceu à geração romântica de Casimiro de Abreu, Luís Delfino e Luís Guimarães. No prefácio às suas Poesias (1914), Sílvio Romero o qualifica como “um lirista de primeira ordem no Brasil”, que se distingue por “certa singularidade, certa elevação graciosa e delicada das frases”, além da completa correção da língua e da forma métrica, características que o tornam um precursor do Parnasianismo.
Alberto Ribeiro Lamego nasceu no dia 09 de abril de 1896 em Campos dos Goytacazes e faleceu aos 89 anos, no Rio de Janeiro, em 16 de outubro de 1985, sendo sepultado em Campos. Filho de Alberto Frederico de Moraes Lamego e Joaquina Maria do Couto Ribeiro Lamego.
Ainda criança, viaja com sua família para a Europa e conclui o primário e o ginásio (6º ao 9º ano) em Lisboa, onde inicia o secundário. Como seus pais se mudaram para a Bélgica, conclui o secundário em Bruxelas. Matricula-se na Universidade de Louvain e inicia o curso de Engenharia, Artes e Manufatura de Minas. Como os alemães invadem a Bélgica, sua família muda-se para Londres e Alberto matricula-se na Royal School of Mines, do Imperial College of Sciences and Tecnology, onde graduou-se em 1918.
Em 1920 sua família regressa ao Brasil, após 14 anos e Alberto Lamego é admitido no Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, de onde afasta-se em 1924 e retorna em 1933.
Nesse período, escreveu as quatro obras sociogeográficas da série “O Homem e o Meio Ambiente”, enfocando a geologia do Rio de Janeiro, as escarpas da Guanabara e a geologia de Campos e da planície costeira. Alberto Ribeiro Lamego possui inúmeros trabalhos sobre a geologia e os recursos minerais do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil, com uma produção científica dificilmente atingida por outros autores.
Entre 1944 e 1963 publica quatro obras-primas de cunho geográfico, histórico, ecológico e social: “O Homem e o Brejo”, “O Homem e a Restinga”, “O Homem e a Guanabara” e “O Homem e a Serra”. Publica, em 1944, “A Bacia de Campos na Geologia Litorânea do Petróleo”, prevendo o potencial petrolífero da área. Em 1948 apresenta a Folha Geológica do Rio de Janeiro na escala 1:100.000, primeira quadrícula publicada no estado.
Foi um dos pioneiros da utilização da fotointerpretação como ferramenta para o mapeamento geológico no Brasil. Durante 20 anos faz parte da Comissão da Carta Geológica do Mundo, tendo publicado em 1964 o primeiro mapa geológico da América do Sul feito por sul-americanos.
Por seus trabalhos recebeu inúmeras homenagens: denominações de diversas espécies fósseis, muitas medalhas e condecorações.
Alberto Ribeiro Lamego, Lameguinho para os amigos mais íntimos, também foi poeta, músico e, como escritor, foi membro da Academia Fluminense de Letras, da Academia Campista de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico da cidade do Rio de Janeiro, do Instituto Pan-Americano de Geografia e História.
Hervé Salgado Rodrigues, professor e diretor do jornal A Notícia, escreveu sobre ele em seu livro Na Taba dos Goytacazes, no qual diz:
“(…) Membro titular da Academia Brasileira de Geografia; do Instituto Pan-americano de Geografia (OEA), sede no México; Delegado à Convenção de Copenhague (1960); Delhi (1964); Reuniões das Cartas Geográficas do Mundo em Hanover (1965); Paris (1966); Vice-presidente da Comissão da Carta Geográfica do Mundo e membro de muitas outras instituições de projeção internacional. Não esquecendo, entretanto, sua terra natal, foi professor de |Geografia no Liceu de Humanidades de Campos. (…) Ao sentir sua morte fez dois pedidos: ser enterrado em Campos e seu corpo velado na Igreja de São Francisco… a irmandade3 que controla a Igreja havia tomado a medida de não mais permitir velórios no templo e não concordou em abrir exceção, nem para o ilustre brasileiro e campista. A seu velório e seus funerais não estiveram presentes nem se fizeram representar membros do poder executivo municipal e da Câmara Municipal. (…) Depois, em junho de 1987, a municipalidade procurou redimir-se, instituindo o Troféu ‘Alberto Ribeiro Lamego’”.
Anos depois, com a implantação da UENF e o alargamento da extensão da Avenida 7 de Setembro, esta recebeu o nome de Avenida Alberto Lamego, em sua homenagem.
Obras:
O levante de 1748
A Planície do Solar da Senzala – 1934 – 2º edição – 1996;
A Geologia de Niterói na tectônica da Guanabara – 1945;
O Homem e o Brejo – 1946 – 1ª edição e 2ª edição – 1974;
Muxuango e Mocorongo C. Fl. De Folclore ano IV Nº V- Março/1972;
O Homem e a Restinga – 1946 (IBGE);
O Homem e a Restinga – 2ª edição realizada pelo autor – 1974;
Campos – Capital do estado do Rio de Janeiro – 1930;
Bibliografia (Apontamentos Bibliográfico) – Editado pelo C. M. de Geografia;
Acalanto dos Airises;
O Homem e a Guanabara (2ª Ed. IBGE) – 1964;
O Homem e a Serra – 1950 – (2ª Ed. IBGE) – 1963;
Geologia das Folhas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé – 1955;
A Bacia de Campos na Geologia Litorânea do Petróleo – 1944
Folha do Rio de Janeiro – 1948;
Escarpas do Rio de Janeiro (Serviço Geológico e Mineralógico) Boletim 93- 1938;
Restingas na Costa do Brasil (Boletim nº 96 e Mármores do Muriaé (RJ) Boletim nº 97) – 1940;
Theoria do Protogneis (Boletim nº 86) – 1937;
Revista da Academia Brasileira de Letras – PJS – Vol. IV- Janeiro/1912;
As invasões Francesas no Rio de Janeiro
Fundação de Atafona e da igreja N. S. da Penha – (Livreto);
Macaé à luz de documentos inéditos
Referências
CARVALHO, Waldyr de. Campos depois do centenário, Vol.II;
___________________. Gente que é nome de rua Vol. I;
RODRIGUES, Hervé Salgado. Campos – Na Taba dos Goytacazes. Biblioteca de Estudos Brasileiros. Imprensa Oficial. Niterói, 1988;
SIQUEIRA. Jorge. Blog Terra Goytacá;
VILHARES, Artur. As ordens religiosas em Portugal nos princípios do século XX. Artigo publicado em www.bnportugal;
www.fmsoares. Expulsão dos Jesuítas e de outras ordens religiosas.